Não é uma crítica. É mais uma triste compreensão dos fatos: o Estado, a idéia de segurança jurídica e pretensão de paz social se já não estão mortas no Rio de Janeiro estão, no mínimo, próximo de um rompimento perigoso e, talvez, definitivo.
A violência é um comportamento civilizacional, estranhamente reconhecido como barbárie, mas que faz parte, infelizmente, do dia a dia social. Contudo, em algumas situações até mesmo ela se torna profundamente banal, fugindo de todos os limites que precisamos, enquanto sujeitos sociais, aceitar. No Rio de janeiro estamos já há muito convivendo com essa condição de banalidade da violência. A publicização do grau de especialização do crime organizado não pode surpreender, pois há muito já se falam em organizações criminosas com alta capacidade de divisão social do crime, capazes, inclusive, de portarem armas e tecnologia que o próprio Estado não possui ou que já está ultrapassada.
E o drama do Rio de Janeiro é uma experiência nacional, pois os seus efeitos estão muito além dos seus limites físicos, territoriais, pois a experiência de guerra civil não declarada de direito, mas vivida de fato não se restringem apenas aos morros e periferias cariocas. Todo o país deve estar alerta à capacidade infecciosa dessa situação que tal como um vírus tem condições de se espalhar por todo o tecido social.
Não há justificativas que impeçam uma reflexão responsável sobre os fatos no Rio. Mas somente reflexões não podem impedir o caos ao qual a realidade social se vê obrigada a transgredir para simplesmente sobreviver em condições traumáticas e definitivas
Urge uma ação, não necessariamente violenta, porém definitiva da sociedade e do Estado, pois a responsabilidade é de todos os envolvidos. Consumir em telejornais as cenas de medo, angústia, humilhação e morte diariamente não é uma opção, antes é uma certeza de nossa incapacidade frente a toda uma condição de miséria, drogas, contrabando de armas, descaso do Estado, irresponsabilidade da sociedade que precisam alcançar um ponto final, em nome dessa doença social alcançar, inclusive, toda a idéia de Estado Democrático de Direito que estamos buscando construir já há alguns anos.
O Rio é olímpico. Que seja hercúleo também na capacidade de ajudar-nos a construir uma cidadania e democracia que tanto esperamos e precisamos, enquanto nação responsável em enfrentar sua inglória violência.