Rio de Janeiro: cidade 'maravilhosa' também do medo e da crise social

Rio de Janeiro: cidade 'maravilhosa' também do medo e da crise social

Não é uma crítica. É mais uma triste compreensão dos fatos: o Estado, a idéia de segurança jurídica e pretensão de paz social se já não estão mortas no Rio de Janeiro estão, no mínimo, próximo de um rompimento perigoso e, talvez, definitivo.

A violência é um comportamento civilizacional, estranhamente reconhecido como barbárie, mas que faz parte, infelizmente, do dia a dia social. Contudo, em algumas situações até mesmo ela se torna profundamente banal, fugindo de todos os limites que precisamos, enquanto sujeitos sociais, aceitar. No Rio de janeiro estamos já há muito convivendo com essa condição de banalidade da violência. A publicização do grau de especialização do crime organizado não pode surpreender, pois há muito já se falam em organizações criminosas com alta capacidade de divisão social do crime, capazes, inclusive, de portarem armas e tecnologia que o próprio Estado não possui ou que já está ultrapassada.

E o drama do Rio de Janeiro é uma experiência nacional, pois os seus efeitos estão muito além dos seus limites físicos, territoriais, pois a experiência de guerra civil não declarada de direito, mas vivida de fato não se restringem apenas aos morros e periferias cariocas. Todo o país deve estar alerta à capacidade infecciosa dessa situação que tal como um vírus tem condições de se espalhar por todo o tecido social.

Não há justificativas que impeçam uma reflexão responsável sobre os fatos no Rio. Mas somente reflexões não podem impedir o caos ao qual a realidade social se vê obrigada a transgredir para simplesmente sobreviver em condições traumáticas e definitivas

Urge uma ação, não necessariamente violenta, porém definitiva da sociedade e do Estado, pois a responsabilidade é de todos os envolvidos. Consumir em telejornais as cenas de medo, angústia, humilhação e morte diariamente não é uma opção, antes é uma certeza de nossa incapacidade frente a toda uma condição de miséria, drogas, contrabando de armas, descaso do Estado, irresponsabilidade da sociedade que precisam alcançar um ponto final, em nome dessa doença social alcançar, inclusive, toda a idéia de Estado Democrático de Direito que estamos buscando construir já há alguns anos.

O Rio é olímpico. Que seja hercúleo também na capacidade de ajudar-nos a construir uma cidadania e democracia que tanto esperamos e precisamos, enquanto nação responsável em enfrentar sua inglória violência.
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# Posté le lundi 26 octobre 2009 17:59

O professor, a sala de aula e a sociedade: difícil relação

O professor, a sala de aula e a sociedade: difícil relação

A sala de aula é um laboratório. É reflexo complexo da sociedade em que ela acontece, uma vez que a relação professor/aluno reproduz com certa fidelidade as contradições sociais. Dizer que é um universo mais simplificado ou de fácil compreensão é desconhecer todas as facetas desse espaço.

Por um lado, o dos professores, a situação é tangencialmente cruel, pois não é somente a ineficácia de uma política efetiva sobre a educação e os educadores que está ausente, ainda que presente enquanto discurso vazio e casuisticamente demagógico de políticos e partidos, mas sim porque a lembrança do professor somente se dá em situações limites em que são marcadas por problemas e absurdos.

Por outro lado, o dos alunos, fica difícil não aceitar o desinteresse, a falta de compromisso e mesmo as manifestações variadas de violência que reproduzem, já que espelham a realidade cultural originária, isto é, a família e o meio em que habitam no longo processo de sociabilização. É trágico, porém verdadeiro reconhecer que a crise que carregam para dentro da sala de aula é a crise do interior das famílias, das ruas e dos valores marcados por uma sociedade de velocidade, superficialidade e de estímulo a desagregação.

Não se pode, é claro, deixar de lembrar que a educação, lembrada como solução mágica para a atual crise social não traz em si condições taumaturgas, divinas, pois ela é apenas um dos meios pelos quais construímos a nossa identidade social. A crise que se abate sobre a escola e o magistério é uma crise generalizada que traz em si uma crise de identidade, cidadania, civilização.

Não basta afirmar a necessidade de salários mais dignos, de maior disciplina, rigor e obrigatoriedade quanto aos símbolos nacionais entre os alunos para se acreditar em um processo transformador, pois os salários não são dignos, a disciplina e o rigor precisam ser conquistados e não impostos e cantar o hino ou hastear a bandeira por decreto não informam ninguém como mais preparado para a coexistência social. A transformação que se quer inicia no primeiro quadro negro, com as primeiras experiências que se dão, obrigatoriamente, em casa e não na sala de aula.

Há um hiato entre o que é preciso realizar e o que é possível conseguir, e essa não é uma questão semântica. Assim, que se veja a sala de aula como mais um espaço social e não como lugar sagrado e os professores como professores, e não como psicólogos, pais ou padres, porém, profissionais e que apesar de tudo valem muito mais do que um mero 15 de outubro, mera data no calendário comemorativo do Estado.

# Posté le dimanche 11 octobre 2009 20:17

Quando punir não é ensinar!

Quando punir não é ensinar!

Temas polêmicos obrigam-nos a buscar uma maior reflexão, para não se incorrer em teses superficiais e inconseqüentes. É esse o caso da punição aplicada por uma professora em uma escola pública em Viamão. E, importa sempre lembrar que todos, envolvidos diretamente ou não, sempre buscam justificar, mesmo o absurdo.

A professora em questão afirma ter agido como 'cidadã', já que ao punir o aluno estaria permitindo-lhe uma experiência sobre a responsabilidade que os atos sociais alcançam num dado tecido social. A punição teria, assim, um caráter pedagógico. Qual caráter? Em que medida a exposição serviu como experiência positiva? Há controvérsias quanto à eficácia do ato realizado, inclusive no próprio adolescente.

Diz a professora que recebeu apoio da comunidade. Não é surpresa. Numa sociedade como a nossa, acostumada com a sina de conviver com impunidades, privilégios, corrupção pública, violência, qualquer ação que se imponha sobre qualquer agente de um ato ilícito ou irresponsável, significará, em medidas perigosas, uma alternativa concreta de vingança, revanchismo ou, de forma complexa, uma atitude positiva de parte de quem não agüenta mais a passividade ou a omissão.

Mas tal reação esperada, desejada por uma sociedade acostumada com a imoralidade pública não pode violar princípios de razoabilidade, proporcionalidade, proibição de excesso que foi o que aconteceu no caso dessa punição ao aluno.

Todos estão cansados da inércia moral que se abateu em nosso país. Não há mais como se aceitar passivamente a degradação de tantos valores que (in)formam uma idéia de ser humano, cidadão. Contudo, não é reafirmando uma idéia de cidadania particular, fruto da frustração, da decepção e de uma condição de vida difícil que se pode, no outro, descontar essa frustração.

O maior perigo que vivemos é a individualização da idéia do 'certo', 'legítimo', 'direito' e 'justiça'. Essa individualização, num espaço social em que tantos valores estão fragilizados, tem a força de justificar abusos, inconseqüências e reações exageradas.

Em nome da mesma cidadania que a professora buscou defender, ela acabou por agredir a cidadania do outro. Então se pode aceitar o vandalismo praticado? É claro que não! Isso seria justificar o desrespeito e a barbárie que abundam em nosso país. Mas, tem razão quem diz que no olhar distante do fato tal punição se justifica, como tem razão aqueles que próximos, não podem aceitar aquilo que entendem ser apenas uma humilhação.
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# Posté le mercredi 23 septembre 2009 09:41

o 20 de setembro e o seu herói sem nome: o peão da guerra!

O 20 de setembro e o seu herói sem nome: o peão da guerra!

"O verdadeiro herói é aquele que faz o que pode. Os outros não o fazem" (Romain Rolland)

"O primeiro grau do heroísmo é vencer o medo" (G. Bona)


Todas as culturas apresentam os seus mitos e símbolos. Independente do objetivo que se dê a esses mitos, o sujeito coletivo busca se construir na constante reificação de sua história. Esse é o caso da revolução farroupilha que esperamos mais uma vez, comemorar.

Tal revolução contada e recontada a partir de variados interesses encarna uma idealização, uma imagem de nossa tradição que necessariamente não reflete toda a verdadeira faceta daquele longo conflito de 10 anos. Entre caudilhos e imperiais, entre uma política econômica do charque e pretensões confusas de idéias republicanas, construímos uma trajetória histórica de independência, orgulho e tradições originalmente únicas. Mas o 20 de setembro é muito maior do que o culto a Bento, Garibaldi, Anita, Canabarro etc. Essa data é do anônimo guerreiro conhecido por peão. Qualquer peão que acompanhando o estancieiro lutou essa guerra sem nem mesmo ter condições em compreendê-la.

É o peão, sem nome específico e sem sobrenome destacado que figura cavalgando pelo campo do Rio Grande, lutando numa guerra que não é sua, mas que se fez sua na medida em que a relação entre ele e o caudilho era pessoal, marcada pela honra, pela fidelidade e no compromisso da hierarquia e da disciplina. É na aurora dessa revolução que reluzem os peões de todos os cantos de nosso estado, carregando não o sonho de uma liberdade que nem mesmo é abolicionista, mas que é libertária quanto a idéia do gaúcho, do pampa, do centauro que se confunde com a lenda, do guerreiro que a cavalo busca ser senhor de sua própria estrada, ainda que essa já pertença a outro, o estanceiro.

Na sua submissão, escolhida por ele mesmo, essa servidão é como qualquer outra: marcada pela ausência de liberdade, fixada na vontade de outrem, mas que mitologicamente não perdeu seu encanto de que mesmo quem não foi previamente talhado para o mito pode ser, verdadeiramente, o héroi.

O 20 de setembro é mais do que o cerimonial oficial, maior do que os personagens principais desse ato que confrontou o império e o imperador, mais significativo do que uma idéia geral de república que muitos à época não podiam efetivamente compreender. Nessa data, uma imagem heróica, utilizada por todas as facções, por todas as ideologias ao longo de nossa história, isto é, por maragatos e pica-paus ou chimangos, castilhistas e borgistas, esquerda e direita, se unem para retocar o fato, a revolução farroupilha, mas geralmente esquecendo-se do herói humilde, mas que rebrilha nas cores de nossa bandeira: o peão, verdadeiro senhor dessa história esquecida que começou e terminou da mesma maneira para ele: na honra de seguir o caudilho, na guerra e na paz.

Eis mais um 20 de setembro. Que do silêncio do campo surja esse cavaleiro, 'Cambará' na guerra, 'Terra' na paz, grego na vitória e troiano na glória, vento no tempo da história dessa nossa revolução farroupilha!
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# Posté le lundi 21 septembre 2009 18:56

Quando invadir não é ato de cidadania, mas apenas violência (des)organizada.

Quando invadir não é ato de cidadania, mas apenas violência (des)organizada.

Uma das grandes conquistas da democracia em nosso país foi o direito de todos a liberdade de expressão. O texto constitucional é claro e objetivo na defesa do direito ao livre pensamento e ao direito de reuniões. Entretanto, não autoriza o excesso no qual algumas manifestações sociais têm buscado chamar a atenção da sociedade. O excesso não combina com a democracia, uma vez que ele é uma forma de agressão ao estado democrático.

Tal excesso fica evidente nas seguidas e reincidentes manifestações do MST, que comumente agem e atuam ferindo os princípios do Estado Democrático, mesmo que busquem se proteger quando afirmam defender um segmento da população que tradicionalmente vem sendo marginalizado por um processo de Reforma Agrária que é lento e de resultados pífios.

As constantes invasões e os conseqüentes atos de vandalismo e destruição que se seguem não possuem justificativas. Qualquer tentativa é hipocrisia de quem se utiliza de uma legítima justificação, a Reforma Agrária, para explicar a utilização de estratégias ilegítimas, inconseqüentes e ilegais.

Não se pode perder de vista que a Constituição é taxativa quando garante o direito de reunião pacífica, sem armas e para fins lícitos. Uma invasão não é pacífica, pois fere a capacidade da outra parte em resistir. Não se dá sem a utilização de 'armas', sejam elas quais forem e não podem ser justificadas pelo fim lícito quando o meio é ilícito. A justificativa teleológica em que os fins justificam os meios é tão prejudicial à Democracia quanto à corrupção, a improbidade, o nepotismo e a violência generalizada.

Ainda que as constantes invasões aconteçam na medida em que há um hiato de autoridade do poder público, conivente por intenção e por omissão, a destruição de uma propriedade privada ou de um espaço público são atos de barbárie de uma estratégia irresponsável que, em última instância, favorece a sobrevivência de uma situação que não tem solução a curto espaço de tempo, assim, permite esse viver fora dos limites legais e legítimos.

Nenhum direito é superior a outro direito simplesmente porque é fruto de uma coletividade ou de uma historicidade. Os direitos do MST não são teológicos, ao contrário, são tautológicos. Num Estado Democrático todos precisam saber perder, esperar e existir dentro da lei, pois fora disso o que se tem é irresponsabilidade e violência (des)organizada,banal e democraticamente, infeliz.
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# Posté le jeudi 17 septembre 2009 10:24